Chegou-se a mim naquele bar da marginal
agarrou-se como uma preguiça ao tronco da árvore
com unhas bem afinadas para o toque da dança e empurrou-me adentro da minha insignificância. Tive medo de tanta oferta e
não sendo cego
desconfiei.
6.6.08
Foda-se.
Ora aqui está a primeira grande asneira escrita neste jornal.
Mas afinal
o que é um sítio destes sem a vida toda. sem um palavrão.
- Mãe. Desculpa. Nunca quiseste o teu filho a dizer asneiras. Pai
eu também digo.
Estou a ver gente que trabalha para a cooperação para o desenvolvimento e fiquei admirado até de ficar com a boca aberta. E não é que aquilo afinal é mesmo um sucesso.
- Todos os que aqui estão. Todos
pretos brancos e outras cores
(alguns amarelo da cor-do-burro-quando-foge)
todos vestem boa roupa de marca e não apresentam sinais externos de pobreza.
8.4.08
Encontrei-te nos desencontros da escrita
que é onde as tardes são mais longas e as noites o infinito. Foi naquelas entrelinhas
naquelas vogais e consoantes de silêncio
no silêncio branco do papel.
É por aí que vagueia a felicidade melancólica das mais belas carícias
aquelas que as palavras
mesmo por dizer
deixam para sempre sob a nossa pele.
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19.2.08
ao fim da tarde
ao fim da tarde
os olhos, pálpebras semicerradas,
são também crepúsculo,
do corpo entregue ao amor.
cores sobre o mundo,
dia, noite, riso e sussurro.
silvia chueire
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4.2.08
amarela que tudo desenha a ouro
(Como me aflige o coração esse ar dourado que invade as ruas e os olhos ao fim da tarde.)
como se tudo pudesse ser ouro como se tudo ganhasse esse brilho quando por aí andas. Como se
no fundo
as coisas imateriais os valores os sentimentos a própria estética e os prazeres da alma ou a alma ela mesma se pudesse transformar
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2.1.08
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28.12.07
Um medo mortal que me tem esgotado os dias. Que me tem deixado no limbo
sempre no limbo
próximo de ser eu mesmo. Mas longe de ser aquele miúdo que em tempos fui antes de saber o que isto era o que era o mundo enfim o que eram as pessoas os outros e eu mesmo tantas vezes. Vesti para sempre uma máscara e agora nunca mais saberei quem sou. Nunca saberei quem sou. Nunca.
Ela tem razão. Vestimos uma máscara com todos os cuidados para não nos ferir o rosto e não se perceber pelo sangue que escorre que não somos nós. Que lá no fundo não somos nós. Mas temos aquilo na cara. Vestimo-la com todo o jeito. Não há como fugir a isto a esta pouca-vergonha a esta porcaria. Temos a vida toda ou quase toda vestida de uma personagem ou na verdade de várias personagens ao ponto de já não sabermos onde está o verdadeiro eu o verdadeiro coração
e sabemos de quando a quando que ele bate que ele está lá
ou porque nos deu um ataque cardíaco ou estivemos perto disso ou
ou porque nos morreu alguém. Nos morreu alguém. Aí existimos na verdade que a dor traz para cima. E não há máscara que se aguente
digo eu. Que não sei o que digo.
Ela tem razão. Mas tem razão porque me conhece melhor. Porque seria fácil dar-lhe razão tão fácil quanto ela atirar para o ar que sou assim porque todos somos e isso não seria novidade nenhuma.
Mas ela tem razão. Tem razão porque me conhece. Lê-me como se fosse uma tarde translúcida na baía. Ela passou muitas tardes comigo.
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