6.6.09

Viagens

Uma viagem de comboio é uma viagem de comboio. Não há nada semelhante

nem tão rico em termos de experiência humana.
Claro que não é a mesma coisa viajar num regional ou num intercidades
que é onde vou agora
onde as pessoas são bem diferentes e discretas e caladas e a ler e a dormir.
Num regional há a vida tal como ela é. Pelo menos como ela é para pessoas normais que falam que gritam que choram que amuam que ouvem rádio que são amigas que são mal-criadas. De tudo.
Aqui a paisagem está lá fora. Cá dentro o silêncio de uma cápsula sobre carris
bancos melhores e mais cómodos bar rádio no banco avisos sonoros das estações limpeza.
Mas não há mais nada.
Não se sabe o que pensam as gentes sobre os governantes nem sobre as mães deles. Não se sabe o que fazem os vizinhos quando saem de noite ou quando deixam entrar alguém pelas portas traseiras. Não se sabe de quem é o filho que parecia ser do Manuel. Não se sabe se a mulher do outro gosta de mulheres ou de homens. Nem se sabe se o padre cumpre ou não com o apoio aos fiéis e outras incumbências de aldeia. Não se sabe se o presidente da Câmara comeu com fulano o dinheiros dos sicranos. Não se sabe nada.
Aqui só dá para dormir. Bem
na verdade
há umas coisas boas para ver. E há a paisagem. Neste preciso momento
o Rio Mondego.

16.4.09

A avó, pequenina
Dobrava folhetos em cima da saia da prima
Colava cartazes de selos de cobra em todos os andares
De baixo
E pregava pregos sozinhos nos sapatos escuros
A avó, pequenina
Comia cigarras lentas da saia da prima
Colava flores nos pigmentos associados
E beijava homens negros nas solas dos lares
'El otro dia queria un Yan, pero no estabas'
It took combined efforts of the 3 genuis


Célia Gonçalves

6.4.09

Marinela era moça alegre que gostava muito de passeio e diversão. Costumava ir com uma trupe para aí de seis amigos ao baile lá para as bandas de Oliveira. Pelo caminho paravam numa terra a desbastar milho a tarde toda. Depois

pela noitinha
regressavam às suas casas do baile.
Um dia nasceu um menino
conhecido como filho de um tal de Júlio barbeiro e da Marinela sua esposa
que dela era
mas que mais muito mais tarde já na idade dos bailes teve a alcunha de espigas 
oferecida no mesmo salão de baile onde Júlio havia dançado.

10.3.09

Este últimos tempos toda eu fui uma hemorragia. Transbordei a tudo. Liquido amniótico e sangue envolta num sebo que me facilitava o rebolar em vez do andar. Não transbordei sensualidade mas cheirava a sexo e queria ser a tua puta. Serenidade guardei-a toda para determinados momentos e verteu. o meu corpo embebeu um amor diferente tão forte que se o bebesses não conseguirias fugir à embriaguez. Mas depois de tanto tudo acendo o meu cigarro e queria uma ilusão. Queria saber sorrir sensualmente. Um sorriso que te fizesse sorrir sem saberes porque______


(como vais tu__ preso a ideias soltas.pergunta a louise)


19.2.09

Sente os olhos pesados

como se os tivesse aberto debaixo do mar e tivesse visto aquilo que há para ver
(Como será o fundo do mar.)
ou apenas tivesse bebido vinho tinto na presença de uma mulher bonita e a conversa tivesse sido intensamente subtil
(Como será o fundo do mar. Talvez
e algo estivesse para acontecer
uma sonolência desejada.
de muito saboroso. Tranquilo. Aromático. Acende um cigarro
puxa
fecha os olhos abre as narinas
fundindo a maresia os frutos as ervas outros químicos sexuais
com o fumo que une mundos momentos. Agora um whisky
prolonga o dia noite dentro. Parece que nada pode acabar. É uma espécie de eternidade.
(Uma ilusão boa.)

Ai que coisa.

11.12.08

A minha cabeça está sempre a escrever. Banalidades muitas vezes e outras tantas intimidades
coisas que alguns intelectuais achariam excessivamente intimistas ou umbiguistas ou
uma merda qualquer
(são uns pedantes armados em enciclopédicos armados em complexos
no fundo uns complexados)
mas não se trata nada disso e eu é que provoquei esta frase apenas para dizer uma coisa que queria dizer há algum tempo e que poderia ser tema de um texto telegráfico para encher este branco detestável que me aparece no ecran
- Não suporto escritores e quejandos armados em coladores de sêlos ou de etiquetas ou de rótulos ou de nomes
(Serão taxonomistas
interrogo-me)
que aquilo que escrevo são apenas palavras com sentido e sentidos
sentimentos
meus e alheios
perturbações da alma do corpo da vista dos sentidos todos que se ligam ao coração ao íntimo
apenas divagações por entre a chuva de palavras que fazem o seu autónomo caminho ou a sua queda desesperada pelas cataratas daquilo que é a minha existência hoje.
- Vazio
questiono-me eu.
não suporto pessoas que querem impôr modelos aos outros cercear a sua liberdade
não suporto. E digo mais
- Aquilo que se cria é para quem se cria
(Compreendo as questões teóricas sobre a substância da escrita e os dogmas que parecem bons
ditos por quem parece perceber do assunto
mas mais não faz do que acantonar-se numa religião que inventou.)
o que parece fazer todo o sentido.
Escrever é sentir é soltar o prazer que as palavras podem dar oferecer promover
e a capacidade de fazer sonhar de libertar o pensamento de o levar por caminhos diferentes
(Claro que a escrita pode ter mais funções e ser um complemento rico em cultura
sobretudo pela memória que transporta)
é tanta coisa que eu sei lá.
- O miserável receio de ser sentimental é o mais vil de todos os receios modernos
dizia Gilbert Chesterton.
Ficou bem não ficou esta citação. Tinha de meter aqui algum valor acrescentado
mesmo que não faça a menor ideia de quem é o dono de tal sapiência. Por isso
aliás
não lhe pagarei direitos de autor nem lhe farei nenhum agrado especial.